ainda que mal
poetar a dor da madrugada
em versos tênues e sombreados
pelas palavras da minha própria dor
sinto que choro que sonho
que sonho que choro que
a lágrima do rosto que desce que
rola que sonha que rola
tanto rola que tá-que-não-tá
nas árvores e andorinhas da praia sem fim
antiga floresta de espaços vazios
hoje lenha, ainda fogueira, sendo cinzas
e cinzas só, que não são tão cinzas porque
ainda há de ser cor outra que não tão na
memória alarde, arde em brisa morna
do sol gelado sobre as marolas do mar
inusitado, visito suas sombras mais densas mais
fundas como um espírito único, dos quatro ventos
que te afagam as cristas como cabelos profundos
cabelos que envolvem toda a terra fora cinza
fora cores que tão vida como a vida
vivida e desvivida eternamente na imensidão
das infinitudes paralelas renascenças e retornos
repletos de outros dos outros que se perdem
nos buracos negros antigos do mar
o mar perde-se em sonhos que sonham
lágrimas e só
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O que sobra
o que sobra
des
cons
t
ró
i
o verbo
poesia
verso caro
a preço de lágrimas
de tinta
vermelha
como o do quadro
do sorriso triste
não conheço a culpa
que sinto
culpa
que choro
uma tinta entalada
na dor da garganta
como um soluço
seco
de culpa
seca
desculpa-me se a prosa
não me cai bem
mas o verso
me escolhe
como seu amante
sou seu meio de vida
poeta triste poeta
como é necessário
às vezes todas
as vezes é necessário
que seja
des
cons
t
ró
i
o verbo
poesia
verso caro
a preço de lágrimas
de tinta
vermelha
como o do quadro
do sorriso triste
não conheço a culpa
que sinto
culpa
que choro
uma tinta entalada
na dor da garganta
como um soluço
seco
de culpa
seca
desculpa-me se a prosa
não me cai bem
mas o verso
me escolhe
como seu amante
sou seu meio de vida
poeta triste poeta
como é necessário
às vezes todas
as vezes é necessário
que seja
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Mãos e vozes
denuncio radical o profundo das coisas
denuncio lírico, o real valor das coisas
denuncio superficialmente a moral das coisas
a volta dolorosa como parto
ou pranto, o que é que somos
quando animais, quando homens
quando temos o poder nas mãos
que pena, que pena
dar algo tão poderoso assim
e enfiar, num gesto impositivo, senão,
na cabeça humana, a inteligência,
que é como desperdício
« gosto da iluminação amarela do meu quarto
gosto dos tons amarelos que quebram o escuro da noite
como as palavras quebram a matéria do silêncio »
enquanto ia embora vi dois policiais armados
parando e revistando e indagando e enfiando e perguntando e calando, como donos,
um menino negro de bicicleta na chuva, como se fosse,
e choquei-me como se não fosse cena comum
enquanto via jornais vi um trator atropelando
casas de papelão de cem famílias sem-terra
porque estavam em território - inutilizado - de uma grande empresa de latifúndio
dessas qualquer que ganham e se vão
as famílias ficam, os feridos ficam
enquanto andava pelo centro da cidade
vi meninos mais novos que meninos
se drogando roubando sobrevivendo dormindo com cobertores de lama pisoteada
enquanto andava pelo centro da cidade como guerra
vi e me calei
vi e não pude fazer nada
calado e preso por mãos e vozes que não se mostram não se vêem e não se escutam
mas se mostram, se vêem e se escutam
denuncio lírico, o real valor das coisas
denuncio superficialmente a moral das coisas
a volta dolorosa como parto
ou pranto, o que é que somos
quando animais, quando homens
quando temos o poder nas mãos
que pena, que pena
dar algo tão poderoso assim
e enfiar, num gesto impositivo, senão,
na cabeça humana, a inteligência,
que é como desperdício
« gosto da iluminação amarela do meu quarto
gosto dos tons amarelos que quebram o escuro da noite
como as palavras quebram a matéria do silêncio »
enquanto ia embora vi dois policiais armados
parando e revistando e indagando e enfiando e perguntando e calando, como donos,
um menino negro de bicicleta na chuva, como se fosse,
e choquei-me como se não fosse cena comum
enquanto via jornais vi um trator atropelando
casas de papelão de cem famílias sem-terra
porque estavam em território - inutilizado - de uma grande empresa de latifúndio
dessas qualquer que ganham e se vão
as famílias ficam, os feridos ficam
enquanto andava pelo centro da cidade
vi meninos mais novos que meninos
se drogando roubando sobrevivendo dormindo com cobertores de lama pisoteada
enquanto andava pelo centro da cidade como guerra
vi e me calei
vi e não pude fazer nada
calado e preso por mãos e vozes que não se mostram não se vêem e não se escutam
mas se mostram, se vêem e se escutam
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Todos usamos camisa-de-força. Para uma dança flutuante, sutil como um toque de noite ou um balanço de jangada, de uma inevitável beleza, que é algo de triste, um sorriso em pírulas cor-de-ressaca ou o depois. Cercados de nuvens espessas, indo-nos, suspiros e lágrimas, a caixa de fósforos no bolso como chocalho de despedida, é fácil perceber a morte dos ritos, que pesam ancestralmente sob o sapato que abandona como lágrimas as pegadas pelo caminho. Despedimo-nos dos seres humanos e do título sapiens na busca pelo outro lado da lua ou o começo do arco-íris, urgente como o princípio e necessário como a loucura, na escolha de qual chegar primeiro, numa igualdade de preferência, num gosto de febre, ardente como um sol do futuro. ¡La vida es una explosión! La vida es una melodía de Schoenberg, perdida en la calle, acostada con un cualquier hombre en el lío de Miró. Lo seinto revoltada y acomodada con el movimiento de rotación y translación del mundo o sobre la metáfora sobre el condición indispensable del acto. Como se fosse uma idéia de suficiente. Mas cava cava cava o ser humano ainda está. Pobre, podre, pobre, pored, prebo, pedro. Até que impensável surge ali uma flor, e rompe o vínculo com o concreto, como poesia pichada, inchada, mas flor é uma flor, uma flor. C'est toujours quelque chose, mais, minable: c'est mon affaire. No movimento de um êxodo, um fluxo espumoso e corcunda e, ademais resignado ou até adestrado para as todas facilitações e aptidões e papéis e ... da alcatéia humana. Reíamos, como rí el cello. Como lloro.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Tiros de tatos cegos
dois tiros na noite uma metralhadora de escuro dois tiros cegos varam a noite tateando por um abrigo e mais um mirando às estrelas transeuntes
tato cego sobre um desejo em braile indecifrável
o fim do sempre atingido por um pouco do nada
como carinho de escultor ao parir seu filho
música de papel sobre as mãos grossas da chuva
estrelas cegas tateando abrigo de uma mira cega no escuro transeunte varando tiros de uma metralhadora de noites
tato indecifrável de um desejo cego em braile
o nada do sempre atingido pelo fim do pouco
como o filho do escultor ao parir carinho
mãos de música sobre a chuva grossa de papel
tiro de estrelas tateando cegos com metralhadoras no escuro varando a noite na mira de um abrigo de dois tiros transeuntes
braile sobre um tato de indecifrável desejo
o pouco do sempre atingido pelo nada do fim
como filho do carinho ao parir o escultor
chuva de grossos sobre papel de música
dois tiros matam o tato com metralhadoras cegas que miram ao abrigo da noite transeunte as estrelas do escuro
tato cego sobre um desejo em braile indecifrável
o fim do sempre atingido por um pouco do nada
como carinho de escultor ao parir seu filho
música de papel sobre as mãos grossas da chuva
estrelas cegas tateando abrigo de uma mira cega no escuro transeunte varando tiros de uma metralhadora de noites
tato indecifrável de um desejo cego em braile
o nada do sempre atingido pelo fim do pouco
como o filho do escultor ao parir carinho
mãos de música sobre a chuva grossa de papel
tiro de estrelas tateando cegos com metralhadoras no escuro varando a noite na mira de um abrigo de dois tiros transeuntes
braile sobre um tato de indecifrável desejo
o pouco do sempre atingido pelo nada do fim
como filho do carinho ao parir o escultor
chuva de grossos sobre papel de música
dois tiros matam o tato com metralhadoras cegas que miram ao abrigo da noite transeunte as estrelas do escuro
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Entra pela janela
o mundo é tão grande
e eu tão pequeno
e eu tão fraco
e eu
quase como indefeso
defendendo o que não conheço
defendendo o que não me pertence
sou o invasor alheio
sou o escuro do mundo que entra pela janela sem me tocar
por mais que eu queira
Eu quero eu quero!
toca-me leva-me
delicado
não! não sejas tão escuro e noturno e cinza
por que não pode ser somente belo?
quando eu finalmente te acho belo...
e eu tão pequeno
e eu tão fraco
e eu
quase como indefeso
defendendo o que não conheço
defendendo o que não me pertence
sou o invasor alheio
sou o escuro do mundo que entra pela janela sem me tocar
por mais que eu queira
Eu quero eu quero!
toca-me leva-me
delicado
não! não sejas tão escuro e noturno e cinza
por que não pode ser somente belo?
quando eu finalmente te acho belo...
Livro da terra II
a tristeza da terra é uma lágrima de chuva
que lava irriga molha salva cresce germina
a dor da terra é de parto
que são os furos que fazem a plantas quando nascem
a dor da terra é de pranto
de sangue de ferro
que oxida o leite do seio da mulher indígena
vem do barulho do metal engajado
soando agudo e áspero como um grito
na enxada que não mais lavra
que ataca o cru da terra
onde canta o galo
anunciando a briga dos homens
na terra que não mais
a terra que foi
o sofrimento da terra é o homem
que a obriga chamar-se terra
de ser palco e apenas
florescer em guerra
tiro e dor
do que não é da terra
porque a terra não é mais terra
a briga não é mais briga
e o homem não é mais homem
foi talvez
esperança
abrigo refúgio
para quem cria na terra
o seio da mulher indígena
que lava irriga molha salva cresce germina
a dor da terra é de parto
que são os furos que fazem a plantas quando nascem
a dor da terra é de pranto
de sangue de ferro
que oxida o leite do seio da mulher indígena
vem do barulho do metal engajado
soando agudo e áspero como um grito
na enxada que não mais lavra
que ataca o cru da terra
onde canta o galo
anunciando a briga dos homens
na terra que não mais
a terra que foi
o sofrimento da terra é o homem
que a obriga chamar-se terra
de ser palco e apenas
florescer em guerra
tiro e dor
do que não é da terra
porque a terra não é mais terra
a briga não é mais briga
e o homem não é mais homem
foi talvez
esperança
abrigo refúgio
para quem cria na terra
o seio da mulher indígena
domingo, 10 de janeiro de 2010
Livro da terra I
de onde vem a tristeza
é difícil saber
da consciência
de ser
ou de ter
de não poder
talvez
apenas acontecer
de ser assim
as coisas
no país
e no mundo
cava
cava
cava
homem-máquina
que só come pão:
a vida não é pra ter razão
é difícil saber
da consciência
de ser
ou de ter
de não poder
talvez
apenas acontecer
de ser assim
as coisas
no país
e no mundo
cava
cava
cava
homem-máquina
que só come pão:
a vida não é pra ter razão
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O ano começou sendo lavado
Naquele ano o ano começou sendo lavado
A terra decidiu que não precisaria mais do mundo
E o mundo percebeu que o ser humano não deu certo.
Neste enorme latifúndio
onde bem ou mal acorda-se e vive-se
o futuro chega cinza
como um trovão.
A terra decidiu que não precisaria mais do mundo
E o mundo percebeu que o ser humano não deu certo.
Neste enorme latifúndio
onde bem ou mal acorda-se e vive-se
o futuro chega cinza
como um trovão.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Antigos sonhos de um antigo caderno I
Alguns problemas por falta de identificação com a matéria.
Falta o barulho da máquina de escrever
para embalar os sonhos deste poema
caíamos nós no embalo da rede,
amparada em tradicionalíssimos
festivais de celebração
da futilidade humana...
Embora roubamos robalos
é para matar a fome.
Sentimo-nos traídos
pela
própria
carne
O caderno grita suas decepções mas ninguém o ouve!
na rua lotada
cheirando a álcool e meu vômito
somos traduzidos num mingau de erros
na elaboração concreta de uma arma
mais eficaz contra nossos próprios defeitos
A poesia é meu abrigo
onde me refugio de mim mesmo e
de todas as possibilidades de me perder
da minha própria humanidade
quem se importa quem sou
Ninguém se importa com alguém
e quem remói a sua própria frustração
?
A tinta me surpreende por sua fração
A língua pela aliteração
literalmente
estamos nos perdendo de ti, Caeiro
Falta o barulho da máquina de escrever
para embalar os sonhos deste poema
caíamos nós no embalo da rede,
amparada em tradicionalíssimos
festivais de celebração
da futilidade humana...
Embora roubamos robalos
é para matar a fome.
Sentimo-nos traídos
pela
própria
carne
O caderno grita suas decepções mas ninguém o ouve!
na rua lotada
cheirando a álcool e meu vômito
somos traduzidos num mingau de erros
na elaboração concreta de uma arma
mais eficaz contra nossos próprios defeitos
A poesia é meu abrigo
onde me refugio de mim mesmo e
de todas as possibilidades de me perder
da minha própria humanidade
quem se importa quem sou
Ninguém se importa com alguém
e quem remói a sua própria frustração
?
A tinta me surpreende por sua fração
A língua pela aliteração
literalmente
estamos nos perdendo de ti, Caeiro
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Tevê e vê.
estou chocado com uma piada que li
ah não não era piada era verdade e é
o jeito mesmo é cobrar
quem sabe
olhos internos na gaveta homicida
vasculha culha culha
velha velha idéia
esculhamba
nó de garganta
que nos faz calados
frente ao ódio inerte
que a televisão mostra e não vê
ah não não era piada era verdade e é
o jeito mesmo é cobrar
quem sabe
olhos internos na gaveta homicida
vasculha culha culha
velha velha idéia
esculhamba
nó de garganta
que nos faz calados
frente ao ódio inerte
que a televisão mostra e não vê
domingo, 6 de dezembro de 2009
Controle.
Mãos inchadas
e olhos doloridos do sono
Acordo como quem faz guerra...
Fazer acordo com quem faz guerra
à espera do ano, fica pro ano
a vida sem presente
O melhor presente é fazer,
às 12:30, o que você nasceu pra fazer
neste país.
e olhos doloridos do sono
Acordo como quem faz guerra...
Fazer acordo com quem faz guerra
à espera do ano, fica pro ano
a vida sem presente
O melhor presente é fazer,
às 12:30, o que você nasceu pra fazer
neste país.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Soneto amordaçado.
Nada a nada
sou esse intenso indecente
indefinidamente...
O poema, apenas apalpado
apalavreado, um amálgama
deterioração da palavra.
Romanceado um momento
um instante fixado
em a-b-b-a letrado
vale ao menos um soneto
Inverso de pé virado
emoção alardeado, reviravolta
estilhaçado, recolho-me a mim
para em mim não acabar machucado.
sou esse intenso indecente
indefinidamente...
O poema, apenas apalpado
apalavreado, um amálgama
deterioração da palavra.
Romanceado um momento
um instante fixado
em a-b-b-a letrado
vale ao menos um soneto
Inverso de pé virado
emoção alardeado, reviravolta
estilhaçado, recolho-me a mim
para em mim não acabar machucado.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Chuva de vidro
Um calor tão humano de errar
produzir estar deixar cuidar do que é seu
guardar como um reino marginal
fora de si e de tudo
sobre os telhados tão céu
abuelita, boca de bueiro, buraco negro
entrada incipiente de mar
osalardendopeleadentro
um recipiente hermético
fechado coração, cerrado
um balanço de mar balanço
de rede enquanto te expõem as veias
no mar aberto sobre as ruínas
do que não é sertão
nadando contra a profecia
rompendo os tendões da poesia
sob um choro tão ralo de uma tristeza profunda
quanto a chuva rala
com o ar enquanto desce fina-cortante
como choro de vidro
atravessado a gritos e palavras
decifradas com a raiva
sem razão noção perdão
um poema inteiro retirado
do saco de um lixo contagioso
de uma sala de sutura
onde se costuram emoções.
produzir estar deixar cuidar do que é seu
guardar como um reino marginal
fora de si e de tudo
sobre os telhados tão céu
abuelita, boca de bueiro, buraco negro
entrada incipiente de mar
osalardendopeleadentro
um recipiente hermético
fechado coração, cerrado
um balanço de mar balanço
de rede enquanto te expõem as veias
no mar aberto sobre as ruínas
do que não é sertão
nadando contra a profecia
rompendo os tendões da poesia
sob um choro tão ralo de uma tristeza profunda
quanto a chuva rala
com o ar enquanto desce fina-cortante
como choro de vidro
atravessado a gritos e palavras
decifradas com a raiva
sem razão noção perdão
um poema inteiro retirado
do saco de um lixo contagioso
de uma sala de sutura
onde se costuram emoções.
Do fundo do meu polegar opositor.
Seria como sacanagem
vamos ousar, vamos lutar brigar
vamos beber
conceder loucuras
vamos saltar pela porta de vidro
abrir o corpo para a liberdade
vamos fazer um pacto com o diabo
que já vivemos em antecedência
vamos fazer a literatura subversiva ao nosso extremo esquerdo
e extremo direito lado absurdo
produzir sem leis, errar, beber, sei lá
como já nem sei escrever.
Faço o cérebro pensar mais devagar
para acompanhar o movimento de um só braço rompido
nos tempos de crise que crescemos tanto
nossa dor tão eunuca
castrada em osso no osso pelo osso
ao fundo regaço do osso anestesiado
gago de raiva e chorando bestialidades.
Somos tão animais...
somos tão animais em forma do mundo
em busca do mundo
tão triviais...
invisíveis previsíveis
indecentes... submissos
ao tão cru intelecto
dominados pelo polegar opositor
nosso verdadeiro fator evolutivo.
Os tempos não mudam
a história cíclica.
o poema catarse
revolta depurada
em forma de remédio
como droga da tristeza
uma sala de soro de 80 anos
O tempo preso dentro de uma ampulheta
e fora dele o verso livre voraz.
vamos ousar, vamos lutar brigar
vamos beber
conceder loucuras
vamos saltar pela porta de vidro
abrir o corpo para a liberdade
vamos fazer um pacto com o diabo
que já vivemos em antecedência
vamos fazer a literatura subversiva ao nosso extremo esquerdo
e extremo direito lado absurdo
produzir sem leis, errar, beber, sei lá
como já nem sei escrever.
Faço o cérebro pensar mais devagar
para acompanhar o movimento de um só braço rompido
nos tempos de crise que crescemos tanto
nossa dor tão eunuca
castrada em osso no osso pelo osso
ao fundo regaço do osso anestesiado
gago de raiva e chorando bestialidades.
Somos tão animais...
somos tão animais em forma do mundo
em busca do mundo
tão triviais...
invisíveis previsíveis
indecentes... submissos
ao tão cru intelecto
dominados pelo polegar opositor
nosso verdadeiro fator evolutivo.
Os tempos não mudam
a história cíclica.
o poema catarse
revolta depurada
em forma de remédio
como droga da tristeza
uma sala de soro de 80 anos
O tempo preso dentro de uma ampulheta
e fora dele o verso livre voraz.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Estar humano.
A madrugada me despedaça
numa noite sem sono
sem sem sem sem sem
fundo da vida
rumores do vaticano
do inferno sem despedida
o planeta terra fora de sua própria órbita.
Arbitrário da saudade
o sofrimento é sempre uma escolha
- a dor não o sofrimento sim -
e me espedaço sobre o lenço de papel molhado
entro e me escondo na gaveta
dos meus próprios pensamentos
devasso! É uma devastação do equilíbrio
como o próprio sofrimento devastado
explorado no seu ínfimo colar de cólera
coibido de pensar de outra forma
o impedimento de se pensar
sem o mistério da madrugada.
Versos esfacelados, acéfalos
como a massa endoidecida, tresvairada
humanidade, grita louca dentro de mim
produz arte produz arte em frangalhos
como lágrimas de um sol vermelho vermelho
como o ultra-lilás e a outra ultra-cor
qualquer que seja o verso, sempre a sua ruína
sempre a sua dor é o que transparece
alumia como um cadeeiro imaginário
a sombra da sombra no quarto da madrugada.
Enquanto isso correm nus
todos os outros animais
cantando o prazer
que é a natureza
sem complicações
da vida
que é não ser humano.
numa noite sem sono
sem sem sem sem sem
fundo da vida
rumores do vaticano
do inferno sem despedida
o planeta terra fora de sua própria órbita.
Arbitrário da saudade
o sofrimento é sempre uma escolha
- a dor não o sofrimento sim -
e me espedaço sobre o lenço de papel molhado
entro e me escondo na gaveta
dos meus próprios pensamentos
devasso! É uma devastação do equilíbrio
como o próprio sofrimento devastado
explorado no seu ínfimo colar de cólera
coibido de pensar de outra forma
o impedimento de se pensar
sem o mistério da madrugada.
Versos esfacelados, acéfalos
como a massa endoidecida, tresvairada
humanidade, grita louca dentro de mim
produz arte produz arte em frangalhos
como lágrimas de um sol vermelho vermelho
como o ultra-lilás e a outra ultra-cor
qualquer que seja o verso, sempre a sua ruína
sempre a sua dor é o que transparece
alumia como um cadeeiro imaginário
a sombra da sombra no quarto da madrugada.
Enquanto isso correm nus
todos os outros animais
cantando o prazer
que é a natureza
sem complicações
da vida
que é não ser humano.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Aos nossos moldes.
Já briguei nesta rua
com alguém, não sei
minha alma? truculenta
um passante um mendigo
- por aceitar mais facilmente que eu: ser -
uma raposa que corria por entre os galhos
da árvore do cemitério
com a árvore e com o cemitério
e com os fantasmas assombrados
que rondam mundo afora sem realmente achar saída - que desespero!
Já brigamos nessa rua,
todos nós, humanidade! inculta, oculta, difusa
diariamente confusa na sua própria negação
à mim, humanidade, pouco me importa
que passo tal passarinho
tanto com passos curtos ou longos
nem sei mais, mas já brigamos
e ainda brigam, as pessoas de lá,
como se fossem se salvar algum dia
de serem também eles roídos pela aceitação da verdade - como é difícil!
(Ingênuos! alegremente ingênuos são
os pássaros da minha janela que não brigam
nem nunca brigarão - a não ser por amor
que por este vale a morte de um enleio: o canto)
Receio pois que um dia paremos de brigar
tão confusos, tão perdidos na nossa ignorância
já briguei, já brigamos,
como a morte da mocidade perdida
no vazio concreto e abstrato - da nossa ignorância, breve mas feliz...
dos nossos moldes, como uma imposição
desde o berço pertencer, subjulgar a nossa verdadeira felicidade
a fim de pertencer! como sacrificar uma loucura
para pertencer - e talvez a loucura fosse a mais saudável das verdades
indolor pura infinitamente liberdade. Liberdade!
Para quê enfim, pertencer?
Talvez para brigar? - só brigam os que pertencem
E para quê brigar se nem sabemos da nossa própria (in)felicidade
como um destino comum enquadrar-se numa refletiva
inflexiva paraplérgica invessa disléptica - absurdo!
Para quê falar de mim, se tudo e todos ao meu entorno serão sempre entorno?
Entorno! Que te interessa a minha alma truculenta? e minha abnegada poesia
que não satisfaz? Por que evitas o amor? Por quê? Por que respiras? tu que vives tão mal em meio ao tiroteio eterno - interno - que é este viver de gente...
com alguém, não sei
minha alma? truculenta
um passante um mendigo
- por aceitar mais facilmente que eu: ser -
uma raposa que corria por entre os galhos
da árvore do cemitério
com a árvore e com o cemitério
e com os fantasmas assombrados
que rondam mundo afora sem realmente achar saída - que desespero!
Já brigamos nessa rua,
todos nós, humanidade! inculta, oculta, difusa
diariamente confusa na sua própria negação
à mim, humanidade, pouco me importa
que passo tal passarinho
tanto com passos curtos ou longos
nem sei mais, mas já brigamos
e ainda brigam, as pessoas de lá,
como se fossem se salvar algum dia
de serem também eles roídos pela aceitação da verdade - como é difícil!
(Ingênuos! alegremente ingênuos são
os pássaros da minha janela que não brigam
nem nunca brigarão - a não ser por amor
que por este vale a morte de um enleio: o canto)
Receio pois que um dia paremos de brigar
tão confusos, tão perdidos na nossa ignorância
já briguei, já brigamos,
como a morte da mocidade perdida
no vazio concreto e abstrato - da nossa ignorância, breve mas feliz...
dos nossos moldes, como uma imposição
desde o berço pertencer, subjulgar a nossa verdadeira felicidade
a fim de pertencer! como sacrificar uma loucura
para pertencer - e talvez a loucura fosse a mais saudável das verdades
indolor pura infinitamente liberdade. Liberdade!
Para quê enfim, pertencer?
Talvez para brigar? - só brigam os que pertencem
E para quê brigar se nem sabemos da nossa própria (in)felicidade
como um destino comum enquadrar-se numa refletiva
inflexiva paraplérgica invessa disléptica - absurdo!
Para quê falar de mim, se tudo e todos ao meu entorno serão sempre entorno?
Entorno! Que te interessa a minha alma truculenta? e minha abnegada poesia
que não satisfaz? Por que evitas o amor? Por quê? Por que respiras? tu que vives tão mal em meio ao tiroteio eterno - interno - que é este viver de gente...
quinta-feira, 30 de abril de 2009
à Stalingrado.
Escalco, desfalcado Stalingrado,
onde jaz uma ilusão perdida.
Falso líder, nesse mundo já deturpado
em vão erguemos uma bandeira ferida.
E jorra o sangue pelas veias,
pelas esquinas e ruínas do que um dia fora um sonho.
Jorra o sangue pelas veias, pelas esquinas ruínas,
do cadáver de Stalingrado.
Assim caminhamos, em pecaminosa quimera
que ainda assim resiste
existe na bandeira que sangra.
Passaremos por cima do que era
para um dia mudarmos a imagem
do sangue que ainda jorra de Stalingrado.
onde jaz uma ilusão perdida.
Falso líder, nesse mundo já deturpado
em vão erguemos uma bandeira ferida.
E jorra o sangue pelas veias,
pelas esquinas e ruínas do que um dia fora um sonho.
Jorra o sangue pelas veias, pelas esquinas ruínas,
do cadáver de Stalingrado.
Assim caminhamos, em pecaminosa quimera
que ainda assim resiste
existe na bandeira que sangra.
Passaremos por cima do que era
para um dia mudarmos a imagem
do sangue que ainda jorra de Stalingrado.
terça-feira, 31 de março de 2009
Eu, improviso.
A língua presa prende
o trapo sempre preso
requebranto pranto.
Prato quebrado em seu adro.
Quadro preto rebaixado
a edro, coisa de pedro,
preto pedreiro,
branco lixeiro,
preto riquinho,
branco pobrão.
Coisa desigual e não.
Assim senão,
não coisa de cor
mas de gente, que é minha
minha gente, que se esquece
que gente é gente,
e que outra gente é sempre
gente como a gente.
É que não param,
meio a muvuca alienante,
e nem pensam,
entre o barulho alucinante
de civilização.
Poesia em cria,
procria em versos.
Da cama ao luar,
do luar à cidade,
da cidade ao grotesco,
do grotesco ao vento,
do vento ao caos,
do caos ao ventre,
de alguma dessas gente
que já não se lembra
do que é ser gente.
até que o rebento
largado, rumo,
seco ao relento,
abranja enfim,
pouco a pouco,
e toque, com um dedo rouco
o borburinho da calamidade
que reside em cada canto
da nossa inflamada e avançada
e já não tão humana
soterrada sociedade.
o trapo sempre preso
requebranto pranto.
Prato quebrado em seu adro.
Quadro preto rebaixado
a edro, coisa de pedro,
preto pedreiro,
branco lixeiro,
preto riquinho,
branco pobrão.
Coisa desigual e não.
Assim senão,
não coisa de cor
mas de gente, que é minha
minha gente, que se esquece
que gente é gente,
e que outra gente é sempre
gente como a gente.
É que não param,
meio a muvuca alienante,
e nem pensam,
entre o barulho alucinante
de civilização.
Poesia em cria,
procria em versos.
Da cama ao luar,
do luar à cidade,
da cidade ao grotesco,
do grotesco ao vento,
do vento ao caos,
do caos ao ventre,
de alguma dessas gente
que já não se lembra
do que é ser gente.
até que o rebento
largado, rumo,
seco ao relento,
abranja enfim,
pouco a pouco,
e toque, com um dedo rouco
o borburinho da calamidade
que reside em cada canto
da nossa inflamada e avançada
e já não tão humana
soterrada sociedade.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Chuva das seis (Para um Fórum Social Mundial em Belém do Pará)
E chovia, bando de escritores
de um dadaísmo obscuro, e um misticismo irreverente
chovia estrelas mil,
em noites de bêbados equilibristas
em solo e céu do Brasil.
Chovia um pesadelo de possibilidades
em um minuto de solidão.
Sofria calado uma personagem assassinada
por um pingo de escrita
em acentuada inquietação.
Rola madrugada abaixo,
um bueiro destruído por uma tempestade política
estupro no banheiro de palafita,
preservativo destituído de uso
e um bebedouro para trinta mil pessoas quebradas
onde ainda se cria na vida.
de um dadaísmo obscuro, e um misticismo irreverente
chovia estrelas mil,
em noites de bêbados equilibristas
em solo e céu do Brasil.
Chovia um pesadelo de possibilidades
em um minuto de solidão.
Sofria calado uma personagem assassinada
por um pingo de escrita
em acentuada inquietação.
Rola madrugada abaixo,
um bueiro destruído por uma tempestade política
estupro no banheiro de palafita,
preservativo destituído de uso
e um bebedouro para trinta mil pessoas quebradas
onde ainda se cria na vida.
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