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segunda-feira, 26 de abril de 2010

mar e sonhos

ainda que mal
poetar a dor da madrugada
em versos tênues e sombreados
pelas palavras da minha própria dor

sinto que choro que sonho
que sonho que choro que
a lágrima do rosto que desce que
rola que sonha que rola
tanto rola que tá-que-não-tá
nas árvores e andorinhas da praia sem fim

antiga floresta de espaços vazios
hoje lenha, ainda fogueira, sendo cinzas
e cinzas só, que não são tão cinzas porque
ainda há de ser cor outra que não tão na
memória alarde, arde em brisa morna
do sol gelado sobre as marolas do mar
inusitado, visito suas sombras mais densas mais
fundas como um espírito único, dos quatro ventos
que te afagam as cristas como cabelos profundos
cabelos que envolvem toda a terra fora cinza
fora cores que tão vida como a vida
vivida e desvivida eternamente na imensidão
das infinitudes paralelas renascenças e retornos
repletos de outros dos outros que se perdem
nos buracos negros antigos do mar

o mar perde-se em sonhos que sonham
lágrimas e só

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tiros de tatos cegos

dois tiros na noite uma metralhadora de escuro dois tiros cegos varam a noite tateando por um abrigo e mais um mirando às estrelas transeuntes

tato cego sobre um desejo em braile indecifrável
o fim do sempre atingido por um pouco do nada
como carinho de escultor ao parir seu filho
música de papel sobre as mãos grossas da chuva

estrelas cegas tateando abrigo de uma mira cega no escuro transeunte varando tiros de uma metralhadora de noites

tato indecifrável de um desejo cego em braile
o nada do sempre atingido pelo fim do pouco
como o filho do escultor ao parir carinho
mãos de música sobre a chuva grossa de papel

tiro de estrelas tateando cegos com metralhadoras no escuro varando a noite na mira de um abrigo de dois tiros transeuntes

braile sobre um tato de indecifrável desejo
o pouco do sempre atingido pelo nada do fim
como filho do carinho ao parir o escultor
chuva de grossos sobre papel de música

dois tiros matam o tato com metralhadoras cegas que miram ao abrigo da noite transeunte as estrelas do escuro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Antigos sonhos de um antigo caderno IV

Cada espaço canta
seu próprio encanto;
se recanta encostado
recosta e redobra
essa manobra recatada.

Doida-de-ver ao relento
dá-de-ré, relento todo
e põe-se a pôr dia de novo.

Antigos sonhos de um antigo caderno III

À o João.

neste
digo-não-digo
condizente
peço, redigo, digo: tento
arrelento, retento
ao relento desdizente da tarde vazia
em que preenche o sentido
cada vez mais aprofundado
desse teu abismo

beijo de morcego
piada sem tesão
poema reluz
porta de avião, sem brilho
em vão
tente se encontrar
nesse poema elucidário
escrito em binário, relicário
imenso estuário de palavras
de um aquele João

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Abrir o verbo

A abertura do verbo é uma cirurgia linguística.

O único verbo que é qualquer coisa de truncado menos de aberto, é o verbo que soa som-ressonante na cidade do Brasil. O que me faz duvidar que seja português...

(...)


pra rasgar o verbo logo de cara

fora da cidade
vem o ano
que vem
agora

escrevê, fa
zê, po
e
tá Dá,
dá qué,
fa
zê fa

e
poe


já na cidade
vem o ano
que
viria veio
mas não
foi ontem
foi
mas não
veio

ca
dê cadu
co me
çá
ranhá
pra
brí o ver
bo des
de





Leandro Paixão e Rafael Jambas

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Chamamento.

A vida falta de rumo a nossa distância
distancia as palavras de mim
como se cada viesse de um planeta
deserto, marcianos, uma outra linguagem inteira
nosso amor em braille, nosso amor em terra
aqui nesse inferno perdido que deus esqueceu
sombra tateadora de um futuro incerto
mas tão certo é um futuro juntos
como eu quero como eu quero
sentir faltar palavras no nosso próprio planeta
e criar a nossa própria linhagem de seres humanos
desumanizados, criados para o prazer
para sermos sem nome bicho de nós mesmos
e te devorar devorar devorar
despudoradamente com um fio de suor e lágrimas
de um riso eterno que não pára nunca
como uma luz que demora muito a chegar.
Faísca combustível de um tato inexistente,
distância saudade comburente
desfaz e faz sempre, como hoje
a seca dos mares para por entre as chuvas e as ondas
eu rolando as dunas como o vento
venha você com a leveza das nuvens
como um raio clarear toda a escureza dos meus dias.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Quem sabe síntese.

Na cidade gelatina,
encoberta de pedras atiradas à Geni, aquela vaca,
cresce o cão Matuki, nome indígena e de rio,
não nem daqui nem da China,
mas d'outro qualquer lugar distante nesta Terra geóide.
Enquanto isso, distante, marcianos verdes procuram
a explicação do universo, roubada por um gremlin fugitivo.

Quem sabe num domingo de paradoxal paz e futebol,
miremos as nossas pedras ao invés da vaca da Geni
para um pelador qualquer, TV,
maldito ópio, base de todo panis et circences
desta grandiosa Roma, onde um Urbano dois
foi até a cidade caduca de urbanidade.

Estamos na Pax do ai que preguiça! de jorrar sangue
do ai que preguiça! deste caos.
À todos os feudos que são os condomínios,
bom poder fugir da criação que deu errado.
Pra quem fica do lado de fora, tchau.

terça-feira, 31 de março de 2009

Eu, improviso.

A língua presa prende
o trapo sempre preso
requebranto pranto.
Prato quebrado em seu adro.
Quadro preto rebaixado
a edro, coisa de pedro,
preto pedreiro,
branco lixeiro,
preto riquinho,
branco pobrão.
Coisa desigual e não.
Assim senão,
não coisa de cor
mas de gente, que é minha
minha gente, que se esquece
que gente é gente,
e que outra gente é sempre
gente como a gente.
É que não param,
meio a muvuca alienante,
e nem pensam,
entre o barulho alucinante
de civilização.
Poesia em cria,
procria em versos.
Da cama ao luar,
do luar à cidade,
da cidade ao grotesco,
do grotesco ao vento,
do vento ao caos,
do caos ao ventre,
de alguma dessas gente
que já não se lembra
do que é ser gente.
até que o rebento
largado, rumo,
seco ao relento,
abranja enfim,
pouco a pouco,
e toque, com um dedo rouco
o borburinho da calamidade
que reside em cada canto
da nossa inflamada e avançada
e já não tão humana
soterrada sociedade.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Comofazerumaodeaoserhumanodehojeemdia.

Ser em si um ser em questão, ser ou não ser,
O Homem, bicho estranho, é, mesmo, de si mesmo irmão?
De hoje se nega a clássica poética,
que passa a ser fruto incisivo da degradação do ser Homem.
- Degradação da língua.

Deve ser a poesia um eco solúvel
para essa coisa contraditória e descompassada.
Rima mal-passada da miséria humana apenas
cápsulas de bala para o gordíssimo pudor do dinheiro.

Las cosas que importan.

Images from a veiculated infinite world made from finite matter.
Fick dich, ninguém se importa.
O Mundo hoje, o Mundo do futuro, o Mundo de ninguém.
Jamais foi nem nunca será, Mundo.
As the humanity goes - full of vanities and desvanities -
Caminhamos com as patas de trás rumo a um buraco negro.

Dioptic ilusion de le Monde, Monde irreal,
Mundo de sangue e carne viva. Mundo de gente real.
Mundo que navega pelo espaço,
rumo ao todo e ao nada do universo
em sua constante e infinita e serena expansão.

Comemos uns aos outros. Devoramos nossos companheiros-irmãos.
Antropófagos humanos deprovidos de emoção,
gordos de estupefatos exageros nas margens do superávit primário.
Y, en el gran final, para alivio de eso corazón,
Las cosas que realmente importan pueden ser compradas.

Si fueres bueno te daré un regalo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Por culpa de quien?

Alguns anos de solidão,
algumas vezes, assolam a vida
e alheia à duas vontades e meia,
pressente o presente de una soledad.

Um saudoso poeta poliglota,
something in english, he wrote,
Qu'est-ce que en français?

Je ne sais pa de rien
Or is there something left in my mind?
Por quantas sabe, se sabe, a quantas vão?
Alguma métrica bloqueando a visão?
Yo no sé quien ha sido.

Livreto em forma turística,
fast cours de français,
Porque yo no hablo español...

Qual será, enfim, o futuro filosófico da nação?
Algum tema de tour Eiffel, europeic bullshit
deixada sorrateiramente sob os chicotes da escravidão?
quien mucho, quien poco, todos contribuyeron...
Who's guilty?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Olhar pra você.

É um abismo isso,
de arrebatado-deslumbro
em ponta de prancha-tábua de navio-pirata.
Dá de - enlevado desvario -
querer me jogar de cabeça,
e dá de dar medo ao mesmo tempo.

Uma poça de cabeça-virada
em que a água não escorre
nem escoa, e mesmo assim
molha o meu mundo e além.

É um não-sei-o-quê,
de dar nó e entrelaçar
todos os estilos de um mesmo poeta,
e dele reinventar muitos outros.

Afunda a lua e o sono,
profundo gozo de rima brincalhona,
em olhar ofusque
e sorriso fascínio,
de se perder em seu êxtase.

É todo um poema de pé-virado
onde tudo perde sentido e ganha
a todo momento, um deslumbre, um viés,
de enleve respiro. É um suspiro à sua frente.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Noite de inverno.

As palavras se estratificam como nuvens num céu de lua cheia,
conglomerando gotículas de concepções e significados
na tela da mente que desmente idéias dementes,
deveramente simétricas à cadência de estrelas e pedidos.

Nesse céu cambeiam tons e tons noturnos
de azul-escuro-filosófico e azul-claro-meditativo
de sutil gradação, pincelados em aquarela desbotada
da sobretela de vapor d'água, justaposto ao imprevisto cenário:

A Lua, inteira e maciça, de inquietas formas a se diversar,
delineia silhueta zefíria, onde não se sabe seu verdadeiro alcance,
e conversa com a noite, em arcano namoro. De lenta e vaga
não deixa claro seus reais escopos, e permanece aprazível,
sempre bela, esperando cortejo, e seu devido prestígio.

As estrelas condizem: à seu chamego, fazem extravagante declaro,
nascem e renascem, discutem e batalham, pelejam e se ofendem
todas de suas devidas distâncias, de modo que quando elogio atinge destino,
por gênero de excêntrico acaso, passaram a vida inteira acreditando amor incorrespondido, pois que já inexistem.

Embaixo, sorrateira, dorme a inquieta cidade, apreensiva numa noite de sono,
intrigantemente desapressada, harmoniza-se em cardinale conjunto,
de aprazível concerto:
Van Gogh deslumbra uma noite de inverno em pleno verão arrebatado.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Poema palavra.

P O E M A
O
E
M
A

Circunstância letrada da vida...

...momento preso entre os dedos de cada palavrA

V I D A
I
D
A

Poemática da arte existir...

...viver é retirar de cada momento a sua poesiA

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Que falta faz Bacamarte, aqui na Terra.

Libertaram os poetas! salve-se quem puder!
é um deus-nos-acuda e ainda um sei lá:
eles abrolham das praças, brotam do chão e do nada,
chovem em dia de sol - quando ninguém está de guarda-chuva -
aportam nas portas e ancoram nos portos
apontam e despontam e assim procedem,
dominam a cidade e tomam o governo,
retiram os cartazes e queimam as bandeiras.

O povo, em caótica, decretada calamidade, exclama:
- "Nada tem sabor para eles! ingratos sem raça!
despregam e relegam, pelegam injustos!
essa gente astuta e capciosa! esses tais de poetas!
são loucos! loucos psicopatas de excêntre-recesso!"

Estabelece-se a bancarrota humana, a ruína:
- "Nós, poetas, determinamos a partir desta e de agora,
que o mundo parou! não haverão mais Estados, não haverão mais fronteiras,
não haverão mais nomenclaturas! A modo que tudo é um e de um se forma o todo.
É o fim dos objetos e das coisas, dos artefatos e artifícios.
Serão fechadas todas as congruências, serão fechadas todas as conveniências!
Viveremos só do que nos cabe nas palmas das mãos.
A partir desta e de agora: ninguém é poeta e todos serão;
e seremos o que sempre quisemos ser..."

E foram "ohs" e "ahs" para todos os lados; mais exclamações:
- "Como?! Qual?! Isso é absurdo...!"

Pois que assim seja, porque nesse poema, os poetas são eu, e o poema ainda mais meu:
O que não dura, domínio e predicado, descai, se apaga e desbota,
abrandam-se e se extinguem, são expungidos lentamente,
pelos novos desígnios de idealidade;
- Há tempos se esqueceu o que é posse,
e o ser humano sabe até amar melhor. -
Os países todos convergem para um só, e enfim, o mundo!
Aprendeu-se tolerância e respeito, e melhor ainda,
aprendeu-se a aprender o outro; apronta-se humanidade.

Que finda em completa revolução, de manifesto versado,
regida poesia, poemática, em demasiada poematização:
- "E no fim, não eram tão loucos assim, os poetas..."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Zunido.

Deito-me a zunir. É o som que traz a insônia,
enquanto zurra o silêncio da cidade entorpecida:
"ZZZZZZ"
Zumbe, rezuna e ainda se apruma,
para não me deixar dormir:
"ZZZZZZ"

É a auditiva vida de zumbido zóico:

Zunindo e zunzunando desmedido zuruó
- zurde-zurrada-zureta -
com afincado zimbo de Zês zombeirões.

Zangarreia-zangarilho, zarpa zaranzando
zarabataneando o sono, o zêlo e as zeugmas
em som zueira de Zê zebrado...

Zazaneia essa zabumba zicada, e enzarelha
- zepelim-zigomorfo-zigue-zague-zão-zão -
zarro de zoísta zombaria.

Zoantropia pior que zoada de zodíaco e zinziar de cigarra tonta,
sempre zumbindo, em zarro.

Mas a cidade, que dorme zapeira,
se esquece até do alfabeto, e entoa,
em zuído zumbaieiro, zunido uníssono:
"ZZZZZZ"

Metapoema.

O que chama, renasce, reluz e reclama
é o carro que escorrega;
é a alma que desfrega;
é o coração que desprega;
...esse unívoco jouer de palavras,
que é a minha poesia.

Faz sentido e desfaz, de própria-propriedade por ser apenas.
Mas se completa: Reluta por si,
abarrotada de coalhados rumos;
E também me completa, sim senhor:
Vincula opinião e preferência,
conhecido e experimentado
e notado e apercebido.

Contém, encerra, inclui e desinclui,
e apresenta todos significados e nenhum.
Leia e releia: pois que verá o que busca:
Um insignificante jogo palavreado, sobrenavegando espaço em branco;
Ou então buliçosos contingentes, versáteis
de solução analítica, dilateando intelecto;

Equivale ao significado de consistir, como consiste em equivaler.
E fica e é e está. E já não é mais.
Sou eu ou sujeito-qualquer, outro, que grita de lá,
e opina, e se diz e rediz e desdiz,
e já não sabe mais o que sabia dantes.
Não por ser bicho do mato,
mas bicho bicho mesmo, como outro qualquer bicho.
Que apenas é, e é.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Beijo

Beijo. Semântica do desejo
de um acúmulo real ou fracionado de saudade
e mais desejo. Outro beijo.
Chove-bota-coloca, e deposita e canta
mais uma proposta-proporção,
e ainda uma porção de mais e mais beijos.

E mais me cabe toda a vida no seguinte momento,
de desencosta de lábio e de abertura de olho,
que calha ainda de ser verdade e não sonho,
a miscigenação completa de sinfonias e poemas
que palpitam latejantes em folia-e-dança
compondo odes de impossível e contígua absorção.

É esse seu olhar que me assenta.
Em verdade, me acosta e recosta,
e encosta e inquieta. Desse olhar profundo
em que se perdem, denso, as todas galáxias de todos os universos.
E que isso representem em todo um único homem - mais ainda, eu.
Que, fundo, se abafa, e recala e não se cabe de consumir
d'onde submergem invasões de um sem fim de sensibilidade.
É ainda um bel-prazer, de infinita veleidade de aspiração e gosto;

Desse reparo-contemplado, salta afável, custoso brió.
E que te custa mostrar, cheiosa de mistério
coisa de nenhum segredo - porque desvendo e descalo antecipadamente.
Sussurro de sigiloso enigma, paira silêncio confidencioso,
sobre clima dezembreiro de emblemático calor e mais mistério,
em pouca luz e vento, corre um deitoso cochicho, que me aborda e abrange
e aconchega e abriga você como nunca tão perto.

Têm poder as palavras; e mais ainda as de Eros;
(porque é deus e porque é poderoso - e porque somos frágeis a qualquer cupido).
Quando deixa ser vista e quando viajam de você os seus demais signos
se emana e flui tudo o que a Química ainda não explica.
Se epiloga, em absurda capacidade de soma,
um absorto relicário de mais de mundos de sensações
que se expressam em três vocábulos,
que talvez traduzissem mais que esse inteiro poema.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Gana propaganda.

Um vazio buraco de nada
me separa do resto da humanidade;

Enfurnas açoite o restolho do mundo
ranca olho ranca pó ranca tudo e nada
rancorosamente voltado pra si
e nem sequer pensam
quando escutam o estralo do açoite
chiqueirador-chiqueirá, são chiqueirados
e nem sabem; o rebenque-vergasta
está na mão de todos e de nenhum.

Se auto-chibateiam e lêem auto-ajuda,
pois precisam é da achega do interno!
refulgassa a desgraça na qual auto-imposta se acha
fixa-imposição interna, do mundo da pressão da loucura
Oh, deus, quanta riamba.
Não há amparo no vale-desamparado do mundo.

Melancolias mercadorias e ninguém de branco na rua.
é a receita para o fim. Cada altiva esquina resguarda o horror cominitivo
propaganda alvitricada em vidrinhos lançados ao mar,
e o povo estático-exaltado se deslumbra fascinado
Tudo rampa, pampa, tudo enlevo, da mais gorda mentira
Engrossa posta, rolda-molda o próprio chicote
que encalabra a vida. Reluz antipático o valor do coice.

E nada disso está no "outdoor" da propaganda.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Piola de lua.

A lua gritava sigilosamente,
repousando seu sorriso taciturno
sobre este poema,
trafegado por pernilongos e vaga-lumes
branco-prateados e amarelo-douricados
de todas as origens e destinos e de toda a terra.

Em arrematado cochicho
lançado - de mim pra mim mesmo -
cravelhou-me seu enclave de chave-mistério:
giro, rodopio e regiro, revolvo e torno a girar
sou caco-de-tudo e prova-de-nada
me comprovo por inerente certeza...
É essa a guimba de meu principiado-precipício
em termo em fim: minha liba.

Estrada-fuga de extremada frieza
puá de cegueira-acúlea
bico em pico de povo doente
dor-de-cabeça de tudo o que é gente.
espinho-humano, trago, pico, limite-de-farpa
a cidade se verte em bagana escopo
intento-fito de intuito indigente,
cabo-fenecimento depauperado.
A cidade se verte em ruína.

Ao longe se ilumina sua sina
perece até ao pensar-fenecimento
transpassa o trânsito-óbito
da maquinaria óbvia de avesso sistema.
Extrato-substrato de papel folha
que te aponta e comprova ser mesmo quem é
porque quem é, é - nada abstrato -
e não pode mais ser sem contra-cheque nem prévio-aviso.
Bota, calça e registra seu pé.

Mas a lua lá do alto chameja
chispa-corusca e cintila
e me chama, refulgente
como diriam suas cúmplices estrelas
- amantes-amigas-companheiras -
e de lá se sorri: diz, se articulando:
daqui de fora sentencio:
és um adágio;
Mas eu, cá inteirinha, não tenho rolo de me embaraçar...
Vou continuar brilhando em leso-sabote
Apenas perturbando o infeliz que me notar.