Poema-minuto
uma pírula de sorriso
na inércia do dia-a-dia.
Morelli disse, como um mote, no jogar da Rayuela, que não existe causa plausível ou mesmo aceitável para o não fazer estático da madrugada na cidade, na inércia das marolas no mar vazio e na concepção astronômica de zoroastros e zodíacos e zaratustras inventados sempre-sempre novamente. - Quem é Morelli afinal? - inventor da interrogação de Cortázar e do estupendo diálogo entre o asfalto e as solas descalças dos pés no pular da amarelinha. Seria como refazer-me uma vez após outras na dança despretenciosa das luas a cada semana, nas noites frias em pleno verão e nas cachoeiras incoerentes da sansibilidade.
O processo não é nada
O estímulo é tudo.
Birra modernista
Resignificação do momento
Desconstrução
Ordenada.
- Quando seguro sua cabeça assim entre o berço das minhas mãos...
Ato e significado.
fome.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Comemoração
Eu e um inseto de luz, o mesmo de todas as noites, único disposto a enfrentar o calor insone da lamparina da minha rua, sobre a cidade do silêncio, possui e desperdiça os Kandinskys, Monets e Van Goghs da madrugada, a lua minguando seus mistérios como enigmas, esfinge no deserto da noite, clareando os olhos da minha vontade e do meu corpo, do meu nome e da minha carne, porque a lua minguante tem como beleza a misteriosidade dos seus segredos. Dessa vez quase me decido por falar com o vôo da luz, que talvez tenha coisas interessantes para contar sobre o seu dia, ele que me acompanha invariável nas noites em que olho a cidade do telhado. Hoje vim preparado, como num acampamento, muni-me de toda a técnica, hoje sou o telhado. A cidade iluminada paradoxalmente dorme espessa sobre os desejos leves da rua. E as estrelas brilham numa imobilidade débil, piscando solúveis no lençol escuro que cobre as revoluções dos homens, a música desenhada em todo o século XIX, a inquietação da juventude e as próprias estrelas. Todas as conquistas são válidas com mãos para tremer com a dela, a minha treme até agora. A nuvem devorava a lua antes de desfazer-se. A lua sobrepõe-se agora nua e semioculta, em sua semiótica inabalável. Isso me parece como uma comemoração. O inseto de luz entrecortando seus feixes, nadando o ar, refletindo a luz nos viéses dos olhares de tempo em tempo num padrão incompreensível de farol. O inseto permeando o mundo, existindo insignificantemente ao meu lado e alheio à tudo que o cerca, alheio ao tempo e ao sub-tempo e ao sub-sub-tempo, desnudando o momento, separando a cidade numa sobreposição de imagens e sentidos e significados, como se cada prédio e cada luz fossem desenhadas em planos separados que se sobrepusessem dando-nos a idéia de realidade. Como se eu pudesse parar agora e nesse momento se resumiria diante de mim alguma parte inconcebível da natureza do gênero humano ou da inocência infantil. É melhor salvar o pensamento materializado antes que ele se perca na efemeridade do tempo como demonstra inútil o breve bater de asas do inseto de luz emergido na fumaça da criação e perfurando indefinidamente os horizontes planos do seu entorno, transformando as estrelas a noite os mistérios a pobreza a miséria em insignificantes molduras para o seu existir. O plano silencia profundamente num ante-despertar, do não que é o dormir. Mesmo o vento se cala obscuramente para ser somente o soprar e o soprar que são asas e no comemorar e o comemorar que é a luz da lua. Seria tão mais nítido o não ver do que ver as pequenas partes do nada que nunca se veria e que são as minúsculas fontes para embalar os poucos do tudo numa inesquecível textura de duna ou gosto de beijo ou som do cello na op. 89 de Fauré.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
En el princípio fue tomando actitudes drásticas como no atender a lo teléfono y dejar crecer el pelo para tornarse otro que no él mismo, baseado nas crenças e nos costumbres sociales de que é possível ser quem se queira ou alguém que não exista para preencher as vazias lacunas de pessoas idealizadas nas mentes alheias mas nunca de fato desarolladas num âmbito que quiçá possa ser chamado de concreto.
« as marteladas, sempre martelando esse maldito vizinho! » As marteladas atravessavam a sua parede a sua cabeça as suas idéias. A ansiedade insomne dava voltas-e-voltas-e a noite fazia um calor largo que aumentava a demora do tempo passar.
« as marteladas, sempre martelando esse maldito vizinho! » As marteladas atravessavam a sua parede a sua cabeça as suas idéias. A ansiedade insomne dava voltas-e-voltas-e a noite fazia um calor largo que aumentava a demora do tempo passar.
Já estamos num tempo tão novo, tão inacessível, quase distante do próprio tempo, que se devora vorazmente, invariavelmente...
Os minutos blues « Meet me in the botton when we both are there » desvairados, a angústia da espera, sempre espera, esperando-esperando, enquanto o tempo se devora sem chegar a tocar-nos. E a vida se desenha como um Pollock. E a vida se concretiza aleatória, as idas, os amigos, a arte, o sexo, o álcool todo o álcool que não bebemos, toda a música que nunca escutaremos.
« o bandido que sabia latim, escondemo-nos em baixo de seu bigode em busca da sua poesia... »
Escrever sem nunca ser lido, a opinião indestrutível do caos, a irrucusável maneira de se expressar ante a matéria ontológica da poesia e dos romances. Quem diria que me tornaria metafísico antes dos 40 anos...
E me é possível escrever sem o uso do papel e da caneta, sem o barulho insône das máquinas de escrever, sem que o próprio escrever exista. O café foi, negro e quente, nada além e sem intenção nenhuma foi o buraco-negro do dia, mergulhado numa xícara branca que já não há, com pequenas rachaduras que desfazem a integridade do seu corpo e se transformam ásperas num esconderijo do tempo, flutua mas pesa cada vez mais conforme se esvazia, e faz-nos meditar sobre todo o significado da arte e do ato, sobrepondo-se à sua efemeridade uma existência ainda mais distante, se refaz em receita básica para o cotidiano insignificante de um inseto ou de um simples ramo de grama. O sujo café brasileiro, detenho-me pensando se não deveríamos criar movimentos sociais só para melhorar a qualidade do nosso café « oro negro, estraño burgués » But the English will build you bridges and trains and happiness.
Qual o sentido de páginas e páginas paridas sem finalidade? A que devem os homens para suportarem um café tão ruim vivendo no país que o produz? A que vale a arte pendurada sobre minha cabeça forrando o teto as paredes o chão se ninguém é transformado sequer sentem-na sequer olham-na? Como seriam meus personagens se o acaso viesse a dá-los vida?
Os minutos blues « Meet me in the botton when we both are there » desvairados, a angústia da espera, sempre espera, esperando-esperando, enquanto o tempo se devora sem chegar a tocar-nos. E a vida se desenha como um Pollock. E a vida se concretiza aleatória, as idas, os amigos, a arte, o sexo, o álcool todo o álcool que não bebemos, toda a música que nunca escutaremos.
« o bandido que sabia latim, escondemo-nos em baixo de seu bigode em busca da sua poesia... »
Escrever sem nunca ser lido, a opinião indestrutível do caos, a irrucusável maneira de se expressar ante a matéria ontológica da poesia e dos romances. Quem diria que me tornaria metafísico antes dos 40 anos...
E me é possível escrever sem o uso do papel e da caneta, sem o barulho insône das máquinas de escrever, sem que o próprio escrever exista. O café foi, negro e quente, nada além e sem intenção nenhuma foi o buraco-negro do dia, mergulhado numa xícara branca que já não há, com pequenas rachaduras que desfazem a integridade do seu corpo e se transformam ásperas num esconderijo do tempo, flutua mas pesa cada vez mais conforme se esvazia, e faz-nos meditar sobre todo o significado da arte e do ato, sobrepondo-se à sua efemeridade uma existência ainda mais distante, se refaz em receita básica para o cotidiano insignificante de um inseto ou de um simples ramo de grama. O sujo café brasileiro, detenho-me pensando se não deveríamos criar movimentos sociais só para melhorar a qualidade do nosso café « oro negro, estraño burgués » But the English will build you bridges and trains and happiness.
Qual o sentido de páginas e páginas paridas sem finalidade? A que devem os homens para suportarem um café tão ruim vivendo no país que o produz? A que vale a arte pendurada sobre minha cabeça forrando o teto as paredes o chão se ninguém é transformado sequer sentem-na sequer olham-na? Como seriam meus personagens se o acaso viesse a dá-los vida?
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Pero eso es el insomnio Klee « a rubbish bin full of bloody paper » translados de poesia numa língua inteira de vogais a e u, somente. Na totalidade breve de um inseto pleno de vôo ou na consumação totalitária de um terremoto. Ua uanga au uaud du cacaua aungu kubu seria uma possível transcrição fonética... Pero eso es el insomnio insecto o vuelo o el terremoto pleno. Salvo algumas ocasiões se sentia condenado à fatal parcialidade dos fatos, na liberdade da passividade, indo ao encontro cego dos prédios cinzas ou de cores ralas e foscas do centros de todas as cidades, por hotéis que sustentam vagos e quase que escapando-los o luxo de outrora, e habitações precárias para proteger minimamente o que sobrou dos poemas e dos papéis rasgados « like a moonlight chest like a moonlight » Sorvia lentamente a madrugada em busca da unidade de sua vida, em busca de vodca, em busca da unidade entre a sua vida e a vodca, em busca de algo que nem sabia bem o que era. Sorvia a madrugada em busca de sua vida. ¡Pero eso es el insomnio de el vodca, es el insomnio de su vida!
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Três prosas para a insônia.
Suspendo o fôlego para adentrar a eternidade de um instante. Beijo-te. E é como amar-te, porque amo-te e o beijo é como a semântica que dá sentido a tudo que não é amor. E é como desenhar infindos pontilhados rabiscos tintas ao ar ao chão ao teto, paredes de Kandinsky nos rodeiam ou tendem ao infinito, a matéria perde seu significante para se tornar significado autoexplicativo com tons de absoluto.
Lá fora venta e chove e faz frio, comparado ao calor das cobertas, mas é verão. O mundo está realmente mudado, e nem ainda temos idade o suficiente para relembrar com propriedade, ou ao menos estilo, dos "velhos tempos". Apenas precariamente nos afirmamos na história, nem temos pegadas sobre o mundo, estamos em uma ou duas fotografias digitalizadas integradas comercializadas, e já nos enganamos e perdemos sentidos que quiçá um dia tivemos. As cobertas dão sensação de útero, sua língua cordão-umbilical salva-me resolve-me abraça-me, num beijo de raiz das terras, que volve-me ao antes, acalma o necessário nervoso dos amanheceres e dos jornais, cala a lágrima vermelha do pôr-do-sol. E pensar que já me esqueci do antes e não vou me lembrar do depois, caso o depois tenha o porque de ser, ou desista de tudo como a melodia de Schoemberg.
« O mundo está realmente mudado, o mundo está mudo »
O que me assusta é a reação das pessoas, nem de compaixão nem de medo, uma reação reação, somente isto, como isto sem aquilo isto isto mesmo como é e tem de ser porque é assim e será. Acho perigoso pensar sobre isso às vezes e me censuro, calado e escondido na trincheira de uma minúscula xícara de café, bem forte e escuro, como as manhãs e os jornais, e também as pessoas. Outras vezes decido gritar, pulo a xícara, o café, as manhãs e os jornais, mas, às vezes não alcanço as pessoas, que não pulam não ficam nem sequer deitam para dormir um sono tão profundo.
Lá fora venta e chove e faz frio, comparado ao calor das cobertas, mas é verão. O mundo está realmente mudado, e nem ainda temos idade o suficiente para relembrar com propriedade, ou ao menos estilo, dos "velhos tempos". Apenas precariamente nos afirmamos na história, nem temos pegadas sobre o mundo, estamos em uma ou duas fotografias digitalizadas integradas comercializadas, e já nos enganamos e perdemos sentidos que quiçá um dia tivemos. As cobertas dão sensação de útero, sua língua cordão-umbilical salva-me resolve-me abraça-me, num beijo de raiz das terras, que volve-me ao antes, acalma o necessário nervoso dos amanheceres e dos jornais, cala a lágrima vermelha do pôr-do-sol. E pensar que já me esqueci do antes e não vou me lembrar do depois, caso o depois tenha o porque de ser, ou desista de tudo como a melodia de Schoemberg.
« O mundo está realmente mudado, o mundo está mudo »
O que me assusta é a reação das pessoas, nem de compaixão nem de medo, uma reação reação, somente isto, como isto sem aquilo isto isto mesmo como é e tem de ser porque é assim e será. Acho perigoso pensar sobre isso às vezes e me censuro, calado e escondido na trincheira de uma minúscula xícara de café, bem forte e escuro, como as manhãs e os jornais, e também as pessoas. Outras vezes decido gritar, pulo a xícara, o café, as manhãs e os jornais, mas, às vezes não alcanço as pessoas, que não pulam não ficam nem sequer deitam para dormir um sono tão profundo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Todos usamos camisa-de-força. Para uma dança flutuante, sutil como um toque de noite ou um balanço de jangada, de uma inevitável beleza, que é algo de triste, um sorriso em pírulas cor-de-ressaca ou o depois. Cercados de nuvens espessas, indo-nos, suspiros e lágrimas, a caixa de fósforos no bolso como chocalho de despedida, é fácil perceber a morte dos ritos, que pesam ancestralmente sob o sapato que abandona como lágrimas as pegadas pelo caminho. Despedimo-nos dos seres humanos e do título sapiens na busca pelo outro lado da lua ou o começo do arco-íris, urgente como o princípio e necessário como a loucura, na escolha de qual chegar primeiro, numa igualdade de preferência, num gosto de febre, ardente como um sol do futuro. ¡La vida es una explosión! La vida es una melodía de Schoenberg, perdida en la calle, acostada con un cualquier hombre en el lío de Miró. Lo seinto revoltada y acomodada con el movimiento de rotación y translación del mundo o sobre la metáfora sobre el condición indispensable del acto. Como se fosse uma idéia de suficiente. Mas cava cava cava o ser humano ainda está. Pobre, podre, pobre, pored, prebo, pedro. Até que impensável surge ali uma flor, e rompe o vínculo com o concreto, como poesia pichada, inchada, mas flor é uma flor, uma flor. C'est toujours quelque chose, mais, minable: c'est mon affaire. No movimento de um êxodo, um fluxo espumoso e corcunda e, ademais resignado ou até adestrado para as todas facilitações e aptidões e papéis e ... da alcatéia humana. Reíamos, como rí el cello. Como lloro.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A última imagem da noite chuvosa, uma xícara de chá ou um patuá abandonado onde guardo todos os meus segredos, esquecidos, desvividos, um acrílico colorido ou um jade neozelandês. O mundo desacontece num quadro de Kandinsky, como um universo de tons e sobretons de rosa e rosa cor-nenhuma, algo de azul sobre a mesa do jantar e um amarelo velho que chama para a porta um novo cômodo, igual a este e outro igual àquele, e um novo e ainda outro. Sinto-me às vezes cativo para o fato que nos acordam os livros fantásticos, do quão fantástico para eles deve ser a realidade... É engraçado que não escrevo nunca exatamente o que penso, mas sempre algo que desperta com o que tinha pensado em escrever, que é uma recusa de mim mesmo, e por tanto nunca tenho propriedade exata do que penso ou escrevo ou ambos. Tenho medo (e ao mesmo tempo vontade) de jamais pertencer ao que foi escrito. Deixar que a vida própria do texto aconteça por si só, e vamos.
Mirando-nos.
Em quantas línguas ler-te, em quantas línguas falar-te, ou em quantas línguas beijar-te. Em todo o seu absurdo de um momento, sua guirlanda de todo o tempo, olhar de ciranda, todo esse seu absurdo olhar, que é em si um espaço ou um molde para uma estatueta de Rodin. Todo o seu rosto é o além da máscara e o além do sorriso. Olho-te e moldo-te minha estatueta, minha peça perfeita para explicar o tempo, para explicar os sonhos. Para explicar-te em quantas línguas forem, para além das minhas figuras de linguagem e minha semântica que toca-te apenas os calcanhares de bailarina. Os calcanhares feitos de madeira forte trabalhada infinitamente pelo suor da existência. E olhamo-nos em todas as línguas ou em outra língua, mais sonora, mais poética, mais sentido e menos arte, mais corpo e língua de retalhos coloridos, beijo-te, olho-te, confundo-me. Confuso olho-te apenas numa metade da face e desdobro seu rosto em cubismo, recrio máscaras do seu rosto, de todos os mínimos ângulos do seu rosto, recrio-te poliglota e mágica, recebo-te mágica no molde dos meus rostos todos, intensos, mirando-te de poucos centímetros de distância, apenas vislumbrando uma possível forma de existência ao seu lado, em poucos instantes de uma existência maior, poucos milésimos dessa existência maior, miro-te a textura da pele, as cores que absorve e devolve, os milhares de tons que compõem suas bochechas, contorno a linha da sua boca como um desenho, e devolve-me um estático momento de si mesma, na sua boca, o amor que ama o amor, toda ela, toda essa metade da sua boca é um desenfreado rastro ou mesmo um erro da matéria que coincidiu em ser secretamente a perfeição do traço, não por estética, mas por ser o acaso de ter sido desenhada essa mesma linha que forma a sua boca. Linda por guardar tão ínfimo segredo da natureza em um traço de sua boca. Detenho-me o tempo de uma eternidade olhando teu segredo e meu olhar é tragado como água para um rodamoinho estratégico de seu rosto, que arrasta todo para seu olhar e torna insignificante lá fora um homem que saindo do trabalho, corre pela chuva para chegar mais rápido em casa ou as marchas mudas por uma juventude comprometida ou ainda todas as empresas que se ocupam na criação dos desejos humanos. Somos atravessados por fios do seu cabelo que não se contentam com a imobilidade do todo e tornam-se cachos rebeldes e carentes, solitários em confronto com a matéria do seu rosto, resistindo aos inúmeros atentados de prendê-los por trás das orelhas. Não, o desejo do seu cabelo é de vento, o desejo do seu cabelo é levá-la pela vida, solta como um mundo, feita de entrelinhas, sua verdade e sua objeção, sua liberdade e sua dependência, sua metade mulher e outra minha.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Sobre som e silêncio (primeiro desenvolvimento)
A palavra é a quebra do silêncio que é inércia de um eco surdo que se repete e repete e repete em nada que se movimenta. O silêncio envolve todos os sons e signos, é o conforto das palavras. Na sua ausência-mais-que-presente o silêncio paira no te-dizer te amo, e o amo é o rompimento do vazioio que era amor em princípio.
A palavra é turbulência do vazio-cheio perfeito. A palavra é o serzinho humano que travessa um mar horizonte de existência.
A palavra é turbulência do vazio-cheio perfeito. A palavra é o serzinho humano que travessa um mar horizonte de existência.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Saber-se homem depois de ter-se perdido como homem. (por enquanto sem título)
No banheiro público tem um zunido agudo quando a urina toca a louça e a palavra branca que assusta. Eu tenho medo da palavra branca aguda louça, chapela, interioriza. Passaram vinte, não! uma hora! não! nem um minuto a mais. Mas o zunido congela o tempo. E a louça. Sentado sobre o momento de dois ou mais segundos um fato. Do respingo cobre-dourado, na verdade amarelo-neon, da urina na louça e o silêncio de um zumbido! É o tempo que se tem às vezes para respirar. Mesmo que seja o ar sujo da louça mijada. E não exige nenhum ponto final, em todo caso.
Foi se aprofundando, mergulhando como sendo a louça branca e lisa, impenetrável de palavras. Conhece o interior de todos, a sua filosofia. Sabe quem olha para o lado no banheiro mas olha toda vez sempre a frente sempre, e tem medo de palavras brancas. As palavras brancas são todas as cores que não formam nenhuma, a presença ou ausência de todas. Reflete o que lhe é imposto, mas é impenetrável. Como a louça. Mijam nele. Ele não tem identidade, é branco. É um rato doméstico, branco e bonito, mas impenetrável, nunca saberão o que se passa dentro dele. Ingênuo e não. Todo aquele cheiro o envolvia e adimirava, todo sem cor. E era ali como numa bolha - suja - que respirava. O mundo parecia tão real ali, e o rato doméstico se conectava com um passado ancestral de bueiro. Seu rabo quase chegava a crescer. Mas respirava e no momento que o ar lhe tocava o nariz, naquele instante, não despertava olfato, pois o fluxo invariável como que empurrava o cheiro para longe, até que uma nova onda de ar lhe tocasse o fucinho. Rabo não criava não, mas que tinha bigode tinha. E sentia toda a pureza daquela atmosfera. E ali não tinha medo. A porcelana não lhe ia julgar se sim ou se não, e além do que, também era ele uma porcelana, a do lado, a não mijada ainda, olhando sempre em frente em sua marcha estática. Sendo uma porcelana de mictório ainda não tinha a preocupação das privadas com as fezes e todo o lixo lançado dentro, até o momento em que - um dia - se daria conta de que todas as porcelanas são interligadas pelo interno das paredes e que por dentro de todos os concretos se tocam. Quer dizer, o que uma recebe a outra recebe imediatamente. Talvez não o sinta, mas recebe. Nesse espaço entre o tempo e a bolha de pensamento em que se encontrava não sentiu-se mal. Sentiu-se homem, humano. Sabia o que era a louça. Conhecia o homem. Sabia de onde vinha o lixo. Estava dentro do lixo, como homem, não como louça.
Seu telefone toca e o desperta. Já terminara o que tinha ido fazer naquele banheiro e se deu conta de que estava imóvel em posição de como se estivesse mijando por um longo período, que durou dois ou mais segundos. A porcelana tem a sua própria cronologia. Assim também o homem. Seu telefone o faz se sentir mais porcelana que antes. E talvez ele tenha se dado conta, ou talvez não, o que tenha sido dito pelo seu rato interior mais ancestral. Bicho que vive em bando, se aquecendo em grupo no interior dos esgotos. Talvez isso o tenha tornado mais homem. Talvez isso teria ficado claro se ele tivesse jogado o seu telefone no lixo. Mas não o fez, naquele momento não o fez.
Foi se aprofundando, mergulhando como sendo a louça branca e lisa, impenetrável de palavras. Conhece o interior de todos, a sua filosofia. Sabe quem olha para o lado no banheiro mas olha toda vez sempre a frente sempre, e tem medo de palavras brancas. As palavras brancas são todas as cores que não formam nenhuma, a presença ou ausência de todas. Reflete o que lhe é imposto, mas é impenetrável. Como a louça. Mijam nele. Ele não tem identidade, é branco. É um rato doméstico, branco e bonito, mas impenetrável, nunca saberão o que se passa dentro dele. Ingênuo e não. Todo aquele cheiro o envolvia e adimirava, todo sem cor. E era ali como numa bolha - suja - que respirava. O mundo parecia tão real ali, e o rato doméstico se conectava com um passado ancestral de bueiro. Seu rabo quase chegava a crescer. Mas respirava e no momento que o ar lhe tocava o nariz, naquele instante, não despertava olfato, pois o fluxo invariável como que empurrava o cheiro para longe, até que uma nova onda de ar lhe tocasse o fucinho. Rabo não criava não, mas que tinha bigode tinha. E sentia toda a pureza daquela atmosfera. E ali não tinha medo. A porcelana não lhe ia julgar se sim ou se não, e além do que, também era ele uma porcelana, a do lado, a não mijada ainda, olhando sempre em frente em sua marcha estática. Sendo uma porcelana de mictório ainda não tinha a preocupação das privadas com as fezes e todo o lixo lançado dentro, até o momento em que - um dia - se daria conta de que todas as porcelanas são interligadas pelo interno das paredes e que por dentro de todos os concretos se tocam. Quer dizer, o que uma recebe a outra recebe imediatamente. Talvez não o sinta, mas recebe. Nesse espaço entre o tempo e a bolha de pensamento em que se encontrava não sentiu-se mal. Sentiu-se homem, humano. Sabia o que era a louça. Conhecia o homem. Sabia de onde vinha o lixo. Estava dentro do lixo, como homem, não como louça.
Seu telefone toca e o desperta. Já terminara o que tinha ido fazer naquele banheiro e se deu conta de que estava imóvel em posição de como se estivesse mijando por um longo período, que durou dois ou mais segundos. A porcelana tem a sua própria cronologia. Assim também o homem. Seu telefone o faz se sentir mais porcelana que antes. E talvez ele tenha se dado conta, ou talvez não, o que tenha sido dito pelo seu rato interior mais ancestral. Bicho que vive em bando, se aquecendo em grupo no interior dos esgotos. Talvez isso o tenha tornado mais homem. Talvez isso teria ficado claro se ele tivesse jogado o seu telefone no lixo. Mas não o fez, naquele momento não o fez.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Da coerência junção de palavras.
Escrita palavra, reflexo engatilho da conjura sobre o desestável de todas as coisas. Uma porção de sentimentos traduzidos ao espaço sobre uma rede mais que complexa de sentidos, idas e vindas de um calor quase que insuportável. Ao sê-los e apenas, tudo vai se convergindo para um somente só, bem desequilíbrio à explodir a qualquer fagulha. Um estilhaço de bomba na cara do controle separa do mesmo buraco em que tudo se confunde uma palavra, mundo, de outra, realidade, e a palavra vida da palavra abismo, então enfim, uma livre para se encaixar na outra com coesão e senso, tendendo à sua livre inércia. O mundo real derrama vidas ao abismo sem fim.
É possível?
De um índice completo de todos esses momentos, o encontro foge, ruidoso, abre em um choro epitelial de variadas camadas de chuva de granizo. No auge dos tempos nos rendemos ao impulso externo-material, pois nem que os pássaros cantem mais. O espaço diminui, e o tempo aumenta sua expressão-víbora devoradora da calma, em várias vezes milhares de divisões ínfimas e confidentes entre si dos pormenores da humanidade, tal qual escrevo nos exatos minutos e milésimos de segundos e milhonésimos deste no decorrer das 17 horas da tarde bem marcada, impossível de se perder em um infinito tão bem estruturado. Tão bem estruturado vivo o homem-só, perdido de Cândido e sua inocência-ignorante bem visada amiga da felicidade no cruel negrume do asfalto que encobre camadas de vidas subterrâneas, subalternas, subentendidas, sublevadas, subinformadas, subvividas... amarradas por ainda uma questão de destino mal rasgada, herdada do tempo dos pecados capitais. Neste meio incompreendido pelos deuses já destituídos por nós, o deus-da-vez Deus-mercado aguarda outra calamidade para abalar sua ordem reinante.
Em meio à isso, um casal invisível tenta sobreviver pelos apenas prazeres de um Corpúsculo de Meissner excitado.
Em meio à isso, um casal invisível tenta sobreviver pelos apenas prazeres de um Corpúsculo de Meissner excitado.
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